O latejar dos dedos dos pés, a dor muscular do tornozelo, os desencontros cartilaginosos dos joelhos, o ardor, como que em brasa, das fibras musculares das coxas, o desarranjo de encaixe das primeiras vértebras, o bolor que consome os pulmões, o sangue róseo diluído em cadeias líquidas formadas por aglomerações de hidroxilas, o pesar de uma consciência coletiva nos ombros estreitos que suportam braços longos, não menos desproporcionais em tamanho que em diâmetro, o pescoço alongado como que para poder sobreviver ao darwinismo que extinguiu as girafas de cotocos ligando o tronco à cabeça, os olhos desgastados, cansados, clamando por uma nova camada de visão que já deixou de ser perfeita como a do dia do nascimento, os pêlos capilares que são dispensáveis aos apelos do corpo por aquecimento, uma vez já inventado o artificial. Já não se tem necessidade de apelo estético para o que beira o esquelético.
Ofereço tudo isso, os dejetos de uma vida curta, intensa, bem vivida, para que não deixe mancha sobre essa terra, que há de torna-lo pó, este vegetal carnívoro. Ofereço e em troca exijo, com a arrogância que já é característica do ser, a não lembrança, uma vez que, mesmo quando já não se vai sentir nada, sentir que deixou tristes. É a pior das trocas, apesar de inevitável.
Desprezo o ar que entra e a tosse que atravessa as vias aéreas e expelem os germes que expurgam a saúde que resta na pobre carcaça que somente anda e faz sombra. Ocupa lugar no espaço, portanto é matéria, porém em matéria de ocupar algo que melhor o torne... Não, a mente não se ocupa disso.
Quero a cessão, falência quíntupla, parada “psicorrespiratória”, solidificação do sangue nas principais artérias, inverter o fluxo venoso, voltar aos podres órgãos o venenoso sangue que polui com tudo o que é expelido, compelido e não compreendido. Só! Pó! De preferência, Só!
Áudio: Slow - Cardigans.